terça-feira, 17 de agosto de 2010

Entre linhas

Sabes não te posso amar mais a minha mãe não deixa. Disse-me para nunca mais te ver, acho que ela tem razão. Porque? Porque sim, já viste onde nos vieste meter, que cheiro é este? Pára de chorar e limpa o ranho.
Não é o fim do mundo, o que não falta por aí são gajas. Qual única qual quê, deixa-te de merdas ambos sabemos que te meteste comigo porque estavas sozinha, e eu disse-te para não te apaixonares. Sim eu sei também tenho culpas no cartório, também me deixei levar, mas olha agora acabou não te posso ver mais.
Já lá dizia o outro "olhos que não vêem coração que não sente". É claro que acredito no amor, mas agora não posso pensar nisso, vou-me embora para bem longe e isto acabou-se, mas que merda de cheiro é este? Pára de chorar já te disse.

O espelho não mentia, ela tinha deixado de amar.

Ser pente

Mais um corpo para a caixa forte de lembranças esquecidas. Não tinha que ser assim, olha o que me fizeste fazer. Bastava teres seguido as pistas e manteres-me interessada, só isso e evitavas todas estas letras coladas em forma de palavras estragadas.

Num mundo como este só existem duas escolhas, ser-se quem se é, ou ser-se quem quer que seja.

2000000m de amor

Só queria que me agarrasses nos teus braços e me desses um ultimo beijo, pensou ela enquanto os carris chiavam nas rodas e os motores se preparavam para partir.
Ele sabia que já tinha perdido tudo o que tinha a perder ali, e ficou parado a olhar para a janela enquanto ela se afastava.
Sabiam agora todos os senãos do amor, foram-se chicoteando em praça publica sem que ninguém visse.
Ela arrumou as ultimas lágrimas numa caixinha, não eram para ele.
Ele ficou na gare até tarde à espera que o tempo voltasse atrás, por fim recolheu-se a casa.
Era tempo de reconstruir as muralhas magoadas dos seus reinos, encontrar novos soldados, anexar outras terras e costumes, levantarem defesas mais seguras.

domingo, 15 de agosto de 2010

Lápis semi-curto

Porque o carvão só se grava no papel
quando o peito doí...
A inconstante dormência de braços
no meio da cidade.

Não és tu que quero,
nunca foi assim que começou.
É nas feridas que ficam
que se contam os dias que interessam,
esses toldam a visão.

O fumo a nicotina queimada
teima em rasgar os olhos,
a brasa apaga-se nos ossos.
A musica nos phones
não cessa nem no quarto,
quente,
escuro.

Nunca foi assim que acabou.

Trepadeira

Foi na inconsciência de querer ser mais do que fui que lancei a corda bem alto nas muralhas do castelo abandonado.
Prometidos dragões, batalhas, princesas e um hipotético amor, cravei as mãos nas farpas da corda, fui trepando.
Vento, desculpas, nuvens e sonhos.
Medos, esperanças, trepidações e escaramuças.

Só se apercebeu que a corda partira quando já estava enterrado no chão.

Não foi no tentar, foi no ficar.
O castelo caiu.

sábado, 7 de agosto de 2010

Tece

Enchi com fome dois sacos cheios de nada e distribui por nós.
Era de esperar que os sacos se construíssem e, comodamente, com esperanças, sonhos e abandonos fossem pesando. Força nos braços não nos faltava.
Os sacos, de serapilheira, nunca foram bons para guardar segredos, e areia pequena, que se iam esquivando por entre as coisas grandes que pouco importam, e tu sabes que o mundo é feito de pequenas coisas.
Até a serapilheira se gasta ao fim de uns dias. Dois dias.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De noite os gatos miam

Nos teus olhos verdes rasgados sobre os meus e nas tuas mãos a navegar p'lo meu corpo numa astucia quente, fomos jogados contra a parede a favor do desejo.
Eras-me nova, e eu precisava do teu sexo mais do que a garrafa que nos levara até ali.
Navegava-mos pelas ruas sem a mínima noção da nossa rota, ainda assim sabendo bem para onde íamos.

Confessaste-me ao jantar que não querias mais ninguém, que os homens eram todos uns filhos-da-puta lascivos sem a mais pequena noção de como te fazer sentir mulher. Eu não te respondi, por sabia perfeitamente que pertencia ao mesmo grupo.
Fomos bebendo garrafa após garrafa daquele vinho que mais parecia sangue e que pintava as taças brancas de purpura, a comida, ainda que boa, era o menos importante. Eram só aqueles dois corpos fechados sobre si mesmos que interessavam, eram só os pequenos embaraços de olhares, os pequenos sorrisos que anteviam um serão sem nexo.

Chegámos a um quarto que não consegui destingir, no meio havia uma cama e, como mortos, lençóis de seda caiam sobre ela.
As tuas mãos continuavam atiçando a obscena e indecente parte de mim, e eu por entre as amarras dos teus braços continuava a trincar-te o pescoço e a medir-te as orelhas com a ponta da língua, todo o meu corpo parecia já não me pertencer.
A tua roupa foi caindo junto da minha como balões vazios, e os lençóis mortos ganharam vida, a vida de dois corpos amassados.
As pernas que se envolvem em nós impossíveis, bocas frenéticas entrelaçam-se no calor da saliva, as mãos que acariciam o sexo com o mais gentil dos cuidados, as línguas que sobem e descem o corpo e que se encontram, por vezes, a meio.
Os calores do corpo a fazer jorrar suor que se mistura num liquido explosivo.

Os homens são todos uns filhos-da-puta.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

a Garra

Acabaram-se as moedas, meu amor,
já não podes ganhar mais.
A maquina deu-te tudo o que tinha,
a garra que te ofereceu o buraco do meu peito estragou-se.

Arruinamos devagarinho o fruto
que se ia compondo entre nós.
E tudo ás voltas,
porque não queres,
e tudo fica,
porque não vou.

Em cima do chão,
os botões quinados.
Na face da faca,
a mão.

Não sei.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tudo isto e um muito nada

Não estás, e como tu também não ficou a ponte que me leva a ti.
Ao que parece não aguentou o peso de uma só folha.

Incapaz de ir, quedado nas mentirosas pedras da calçada soltas pelos teus saltos.
Sempre questionas-te o meu olhar por ti, sempre inábil em agarrar os abraços soltos, espalhados.

Menina, agora o que resta são as lembranças do teu suor a escorrer-me na língua, do teu pequeno lago no umbigo após maratonas nocturnas, das minhas costas rasgadas pelo verniz roxo, as lembranças dos lençóis ensopados em álcool e a madeira a cravar-se nas mãos, só restam as cinzas que caíram do cigarro e se colaram ao tecto.

Tudo isto e um muito nada.

Leva-me

Quando a ideia é cravar as garras no meu lombo
e arrancar, à força, o tempo em mim, és mestre.
Se pra mostrares o que sou tens que cuspir para o céu,
então enche-o de nuvens.
Sempre valeu a pena tomar banho no alguidar ferrugento?
E sangrar dos pés?

É ou não difícil crescer ouvindo quem te rodeia?
Se pudesse tapava as orelhas com mil almofadas.

Leva-me de volta ao ninho.

domingo, 25 de julho de 2010

Sal grosso

Reflexos da tua pele nua caminham ao meu lado, nas folhas do jardim.
Pensava já as ter podado no verão que passou.
O que o vento não leva fica no chão à espera que o apanhes, e tu nem te baixas.

Sabes, quando era pequeno a minha mãezinha dizia-me, não batas nas meninas que elas são frágeis. Só que depois daquele espelho partido não consegui parar de te bater. Sabes que sou fraco de mais, sabes que não suporto que me olhes dessa maneira, sabes-me mas não te importas e continuas a olhar-me com o mesmo ar de boneca.

Nunca digas nada de que te arrependas, nunca faças nada que não gostes, nunca fodas com quem já te fodeu.

A brisa que te leve pra longe de mim, por estradas rectilíneas e que nunca cá passe outra vez.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Na rega das flores ele é rei.

Peças de um sonho perdido afogam palavras doces de manhã.
Foram estas as mãos que agrafaram a almofada à cama com uma face pelo meio.

Quando as pernas pararem de mexer, só quando as pernas pararem de mexer.

Conhecia bem a técnica, já não era a primeira vez.

Tudo tem um inicio e um fim, pelo menos é o que os livros nos contam.
E o fim de todas elas era a valeta, depois de uma noite de sonhos mais que grandes.

Nunca foi capaz de alimentar uma flor por mais que uma semana, não ganhara forças nos braços para o regador na altura certa. E elas não tinham culpa, pois cresciam onde quer que fosse, e brotavam no seu jardim inconscientes.

Uma tulipa depois de cortada dura uma semana, ele mato-a em 3 dias.

domingo, 4 de julho de 2010

Hoje é dia de não querer ninguem

Hoje é manhã no meu quintal e eu não quero ninguém.
Não te quero a ti amor, não quero o João nem a Maria, podem todos desaparecer da minha vida por um dia.

Hoje é manhã no meu jardim e não quero ninguém.
Não quero as pétalas das rosas caídas sobre o alpendre, nem os espinhos das silvas que me agarram as calças, não quero regar as tulipas que rasgam o chão, podem todos murchar ou morrer até, hoje não.

Acordei a sentir a tua falta outra vez, já te tinhas levantado à muito, uns dois meses.
Normalmente consigo gerir o que sinto enfrascando-me em vinhos vários, mas hoje apertou-me invulgarmente.
Acordei a pensar que não preciso de ti para nada, que, eu mais eu é só o que importa.
Acordei e apetecia-me ter morrido durante o sono.


Hoje é noite no meu amor e eu não quero ninguém.
Amanhã és tu.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Saldo d'amor

Não foi isto o prometido, quando me venderam este pack de amor.
Tão pouco é a inconstante certeza de a ter, aqui, despojada nos braços.

Sabes bem do que falo, Maria, nunca me deste, nem poderias de facto dar, o teu coração de plástico.
Já o outro menino o tinha esfarrapado no caixote de areia.
Não consegui, porem, não reparar que mo querias vender a preço de saldo.

"Só precisas de cola e um bocadinho de tinta e fica como novo."

Os saldos de inverno nunca me encheram de calor, nem tu, ainda assim comprei.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tulipa (claustro)

Num leve travo o cheiro chega a mim, como, ainda que tão distante, to consigo sentir?
A cama à noite é dura e fria como pedra, o ligeiro aroma vagueia pelo quarto, solene, e por mais que lhe tente chegar escapa-se-me sempre por entre os rasgos dos dedos.
Deitado no chão sujo agarro, tentando arrancar-me da pele o que ficou, não consigo, já cá não está...
O cérebro cega sempre que te vais, e os olhos evitam ver o lugar vazio que deixas.
À noite os espasmos são mais que muitos, durante o dia desprezo-os para que consiga respirar.

Os dias de angústia sem tocar num pedaço de carne que envolve o teu corpo deixam-me sedento, a salivar para o chão pedaços de sémen morto.
Enquanto as veias do teu corpo não rebentarem em êxtase, não tenho um segundo de descanso, enquanto os teus olhos não condenarem o dia em que nos atentaram , não tens perdão, enquanto for de nós o cheiro...