segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dispensa

She was holding herself down in a horizontal position, the wind laid his soft hands against her hair shoving it into the voidless air. Her hands, tied to those brick ropes she held on for so long it grew the green smell of moss, were reddish as a dying rose. The thin, white and cold feet, stepped upon the buildings side, feeling the thick windows of someones glass, were mistreated as a rubbish waste. She couldn't let go.

Solta-te menina, larga as amarras que te agarram à fachada velha dessa casa, dela só restam ruinas. Larga à confiança dos meus braços, e deixa-te cair dai de cima. Manda fora a esperança de desconstrução passiva dessa moradia antiga, ele não volta para reacender com uma pinha a lareira caiada. Atira-te dentro de mim, para dentro de mim e desiste dessa altura espevitada e da postura altiva e majestosa. Ele sabe.
Sobe e desenlaça as cordas que prendeste ao topo da chaminé, vem para minha casa enlaça-as no regaço quente. De lá não saias até que o teu corpo recupere das pancadas que te deram de borla. Sem que pedisses foram-se ajuntando nódoas negras à volta dos teus braços, dos teus punhos, e sem que visses foram-se enrolando punhos em volta do teu pescoço que te abafaram o respirar. Tu sabes.
Dentro da quente manta, e da luz apagada, junta-te comigo e procura o brilho no novo céu, encontra constelações sem sentido e significa-as. Mostra-me o que não sei para que lhe entorne o olhar e descanse o queixo. Leva-me e lava-me, seca-me no manto da tua pele e enxota-me as moscas e as traças de cima. Eu sei.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Conto de Maria I

Era tão efémero quanto o escassear das horas, o entrar no bar e, depois de quatro copos de scotch, encontrar alguém com quem passar o resto da noite. Ainda que isso não significasse o final previsível no fundo dos lençóis, sabia-lhe bem saborear uma boca nova todos os serões. Estudava as mulheres como quem estuda para um exame de final de curso, e conhecia os cantos e recantos dessa bela disciplina. Nunca assaltava o mesmo castelo na mesma semana, e tinha um mapa muito bem estudado, com as fraquezas de cada fortaleza dentro da sua cabeça. Saía sempre antes de se tornar irremediavelmente importante nas suas vidas, e tinha-se como santo redentor de corações acabados. Nunca se deixara envolver o suficiente para que se lhes pudesse chamar amor. Mas tratava-as todas com o mesmo respeito e delicadeza tal jardineiro velho num jardim de rebentos novos.

Maria aconteceu depois, bem depois. Estava já ele agarrado aos seus raros cabelos negros como alcatrão, e os sapatos gastos de tanta dança. Maria, singular, estonteante, de labios carnudos e doces num eterno tom avermelhado, pernas majestosamente altivas de atleta olimpica e silhueta perfeitamente recortada a bisturi cirúrgico, apareceu num fim-de-semana que se escapa no tempo.
Sem avizar, e por entre as garfadas num bolo ao pequeno almoço, no hotel mais caro da cidade, os olhos dele choveram entre os ombros da delicada face de Maria. Naquele preciso instante ele realizou que a tinha que vencer. Era a mulher mais bela que alguma vez tivera visto, as suas bochechas arrebitadas embalavam o bolo num bailar de cisnes, os seus dentes quase sem se fechar tocavam-se solenes como os grãos de areia na praia, o queixo com uma ligeira cova no meio fazia-lhe lembrar as dunas d'um deserto distante, os seus cabelos encaracolavam-se lançando-se sobre os seus ombros quase que deitados a dormir, das pérolas que tinha como olhos caiam, intermitentemente, fugases e desinteressados contemples sobre a mesa. Nunca um ser se apoderara do seu fitar de tal forma, nunca se sentira aprisionado em coisa tão sublime, fria e terna. Tinha que lhe chegar.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crestássemos

Brincavam com o fogo e dominam-no com uma destreza acutilante. De manhã a meio de um beijo deitavam no chão os trapos e ensopavam-nos em querosene, vestiam-se e saiam para as suas vidas. Ambos fumavam, ambos tinham isqueiros com que acender os cigarros e ambos passavam o dia a brincar com o fogo. Ele animava a praça a meio da tarde com as mais singulares danças de amor por entre linhas de livros e pedras da calçada. Ela por sua vez servia de cinzeiro a doentes alcoólicos, onde estes despejavam as cinzas do passado. Jogavam com fogo.

Por entremedio de falsos rituais chegava a hora em que se encontravam de novo e, sem grande importância, se acendiam mutuamente sentando-se numa explanada de café. Enquanto ardiam por fora, o miolo, frio, não tardava em arrefecer. Os olhos, fogo, as palavras, fogo, os suspiros, fogo, os dedos entrelaçados, fogo, a distância entre um roçar de palavras, fogo.
O fogo servia-lhes como o quente de uma lareira, uma labareda no mato seco, uma beata acesa num pulmão canceroso.

Brincavam.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Caixinha de suspiros

Era de noite e a pergunta ficou outra vez agarrada no fundo da caixa, ela olhava-o com aquele sorriso cúmplice à espera do convite, mas ele centrara-se mais uma vez numa tremenda divagação sobre o sentido das coisas em si.
Enquanto as melgas rodeavam, freneticamente, as lâmpadas na rua à procura de calor, eles iam descendo de mãos quase dadas em direcção ao cais, onde ele a iria ver partir pela terceira vez no espaço de dois meses. Era-lhe sempre difícil a aceitação de uma despedida, ainda que curta, por isso nunca sentiu a força suficiente para deitar aquelas cartas na mesa.
Nunca um livro levara tanto tempo a ser escrito como o dele, nunca uma musa vivera tão longe do seu pintor. O inverno tempestuoso aceitara treguas durante aquele dia e, como tal, decidiram que era altura de sair a correr para fora do ninho.
Por fim estavam já no cais rendidos e de armas baixas esperando que alguma coisa rebentasse em frente aos seus olhos e os cegasse de vez. O sorriso não lhe abandonaria de vez a cara até que ela estivesse dentro do barco, até lá a esperança do convite vivia. Ele ainda diletanteando em cima das palavras, mantinha um discurso fugidio e cauteloso que, pé-ante-pé, não tinha falha alguma.
Ouviram o gritar da campainha que abria as portas a mais uma viagem, e enquanto se namoriscavam com os olhos o tempo ia-lhes fugindo esgoto abaixo. Gostei de estar contigo, disse-lhe ela por entre um abraço terno. Acho que devia-mos repetir, lançou ele por entre os dentes. Foi um adeus solto no fim dos dedos.
Na sua cabeça repetidamente rugia a palavra: fica comigo.
Eram só palavras.
E ela nunca ficou.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Silhueta decotada

Sabes, foi no teu arquear de costas que nasceu o mundo, foram nessas linhas finas, que descem a tua cinta recordada, que escorregaram os meus dedos que nem lápis de carvão doce.
Foi sempre assim que se te desenhei as costas, com isso e com os pedaços soltos da minha saliva a escorrer-me a língua e que te cravaram os ossos à pele.
É quando a borracha teima em apagar esse desenho que se soltam infinitos foguetes a gritar por ti, pela tua face, pelo teu perfil decotado, pelos lisos centímetros da tua silhueta.
Sabes, nunca é na cama que morre o sonho, nem no fundo da garrafa, nem mesmo no fim da noite.
É no acordar.
Em ti.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Meias cheias

Hoje não te quero ver estás vazia, sabes bem que não gosto de te visitar vazia. Hoje só de pensar em entrar em ti, vazia, davam-me voltas á garganta, fui por isso errando entre as paredes da pequena Lisboa.
Andei ao encontro das tascas que, cheias, me mantinham o mais longe do teu vazio. A tua falta de tudo era o meu nada.
Mais tarde passei pelos escassos bares procurando antigas companhias, novas caras ou até mesmo aquelas para as quais é difícil parar a olhar.
Já bebido e muito esquecido, voltei para ti. Ainda que vazia eras a única que tinha o jeito de me abrigar.

Hoje não te vou querer ter, és vazia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Teia minha

"Sinto que no fim vou ficar contigo és tudo o que eu quero, mas por agora não te posso ver nem pintado."

Foram estas as escassas palavras que se enrolaram em torno das suas orelhas e lhe aprisionaram a cabeça. A partir desse instante as longas e espessas teias foram lançadas debaixo dos pés, os movimentos, quando existiam, serviam só para o embrulhar no lençol.
Ela tinha jogado todas as cartas, ele ainda meio abananado com os abalos nas fundações parou a olhar para um palacio. Nunca se soube desenmerdar sozinho, pelo menos nunca depois de se ter deitado numa outra cama e desempacotado as meias na mesinha de cabeceira.

"...és tudo o que quero... mas põe-te nas putas." foi isto que continuou a ecoar dentro da mioleira fria e vazia.
Decidiu por alguns séculos deitar areia sobre o assunto e deixa-lo junto das conchas, não a viu, não a queria ver, ou pelo menos era isso que queria querer.

"...no fim és meu..." no fim do quê? Tudo o resto foi um recalcamento estúpido daquele dia e ele não conseguia estar com mais ninguém sem que, numa ou noutra noite, não se aconchegasse mais na teia à espera de ser comido. Ela é maior, ela é sempre maior, ou pelo menos assim o foi.

No outro dia, assaltando um canto do olho, viu-a esgueirar-se na janela de um carro, acompanhada, como é obvio, pela nova presa.

"...no fim..." percebeu.

domingo, 24 de outubro de 2010

Vai-te Foder

Tem dormido no sofá a vontade de voltar para a cama onde deitamos os nossos sonhos de criança.
Caído no fundo da incerteza certa de não voltar a ter ninguém para enrolar o braço depois de uma noite de sexo cru e duro.
As almofadas continuam agarradas, cozidas até, aos cabelos arrancados pela força dos dedos.
E as lembranças, essas aparecem sem avisar por entre um sonho ou assaltam o pensamento às cinco da madrugada coladas a um fundo de copo.
Com a mais inconstante e invariável fome de um pedaço vão de ti, vai-se tropeçando nos recauchutados momentos da longa avenida.
O pó, esse é mais que muito, caído nas ombreiras da cabeça escorrendo até aos sapatos entranhando-se nos ouvidos e nos pequenos espaços dos olhos.
Se não te encontrar hoje agarrando uma garrafa de gin, encontrar-te-ei amanhã numa valeta qualquer a suplicar que te apanhe, aos pedaços, do chão.
Se os teus olhos não inundarem o fundo da rua para que lá te afogues.
Então é porque valeu a pena a dissertação do tempo.
Se eu não te mandar foder da próxima vez que te vir é porque ainda gosto de mim.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Quem

Tenho as mãos escassas de beijos
abraços rotos que nem redes
pés bicudos como flechas
o torço pintado a aguarela
as pernas são troncos partidos
cabeça de lata amaçada
cheio com serapilheira

quem sou eu?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os alheios

"I've got a broken fucked up heart."
Dizia-se por entre os dentes negros de uma vodka preta.
"You should not be messing around with me, unless you meen it."
Estava ciente que a bebedeira era já muita, sabia também que estava ligeiramente sóbria pra saber aquilo que dizia. Saia-lhe da boca com tal sinceridade que doía.
"For me, i just don't care anymore, im just sick of feeling lonely anyway..."
É certo que assim que mergulhasse seria uma caída vertiginosa num poço sem fundo, mas até esses têm paredes.
"Are you really willing to lose it all for just a taste?"
Foi-se jogando este jogo por mais de dois meses, entre bares e jantares, nas mais lindas zonas da cidade.
"I'm really starting to miss you."
Morria a voz no outro lado da linha.
"And you know this wasn't suppose to go like this. It will hurt... eventually."
Foram-se embrulhando as precoces sementes em torno dos pés.
"Leave her, for me."
"Please."
"I'd rather die, than not having you."
"Hello?!"
"Are you there?"


Já não estava.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Escarreta Feliz

Ando há três dias para soltar uma daquelas escarretas literárias bem verdes no intuito de ferir alguém, mas, assim que olho à volta, já tudo se desfez, já não ha alma viva a quem deitar as culpas.
Há três dias que fumo maço após maço e não consigo soltar uma palavra de apresso a tudo aquilo que sinto.
Fazem setenta e duas horas que os lapís e as canetas me fogem, das mãos e dos bolsos, com medo de esgravatar uma parte d'um mundo que não me pertence e que, ainda assim, teimo explorar.
São três os dias da minha doce vida que me espicaçam a mioleira sem dó nem piedade à procura de qualquer coisa estúpida para dizer ou fazer sem que com isso espiolhe por traz das cortinas daquele teatro que não começou.
Não sei o que me irrita mais, se os minutos que passam no papel branco, se a valente escarreta que tenho presa no nariz.

Assim como assim do chão não passa.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sabotada

Enfia o orgulho no cu e toma lá esta merda. Se ficares pois bem, se te fores tanto melhor, já não me interessa.
Não te devias ter metido com aquele gajo sabes bem disso.
Arranjas desculpas para tudo cada uma mais puta que a anterior.
Sabes perfeitamente que nunca te quis magoar, e estúpida foste tu em teres fodido com quem não devias.
É claro que não gosto de ti, como é que podia gostar de ti ao fim deste tempo todo, depois desta merda toda?!
A minha mãe não tem culpa nenhuma desta merda por isso não levantes esse pó.
É claro que as tuas desculpas não chegam, nunca chegaram, não devias ter falado àquela gaja, ela já não me era nada.
Se mexeste na merda e ela cheirou mal a culpa não é minha, se a merda te rebentou no focinho azar o teu.
Não, não, quando estivemos os dois metidos nisto estava silêncio, tu é que vieste com a tua mania de espalha brasas.
Agora para de falar e leva esta merda daqui para fora, já não posso com este cheiro.

Pegou no braço da criança e deixou a porta fechada atras das costas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Vigesimo Oitavo Grau

Dos seus labios sai uma lingua que em muito difere daquela que se fala naquele cantinho de mundo.
Nos seus olhos as memorias de diferentes historias de diferentes países sempre com o mesmo fim, a mudança.
Conhecera-a como a muitas outras numa noite solitária sob as luzes quentes de um bar da baixa.
Por entre copos de uisque e margaritas foram pecando palavras pelos degraus das escadas, e foi-se perdendo a eloquência no olhar.
Lá dentro ainda dançaram ao som d'um disc-jokey desajeitado, antes de tropeçarem os pés para fora da rua vazia.
De mãos enlaçadas andaram, sem eira nem beira, por entre paredes das casas baixas daquela terra, pintada de amarelo e branco, de estendais rasos.
Eram 5 horas da madrugada e a lua ameaçava deitar-te numa planicie apinhada.
Estavam dois corpos por de baixo da alçada de uma porta agarrando a fechadura com a força de mil amantes sedentos.
O portal abriu-se, as escadas rolaram elevando-os, a cama despiu-se violentamente e os quatro braços e as quatro pernas violaram as regras do prazer... depois foi só a mudança, nunca mais se viram.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vigesimo Grau

Rainha de dentes de leite,
tu que nunca sentiste o calor
quente de uma boca
junto dos teus cabelos puros,
a tua mão que nunca passou
pelo peito forte de um guerreiro
e o teu cheiro
que nunca impregnou outros lençóis
que não os da tua cama.

Deita comigo,
nesta noite fria,
o fino véu das tuas vestes.

Não sou guerreiro,
sou simples mendigo de pele nova,
deleita o teu doce corpo junto ao meu e
deixa que o escuro nos esconda
por entre os tecidos crus da carne.

Não, não tenhas medo,
rainha de escassas palavras,
de deixar cair o teu virgem olhar
sobre as peles nuas do pedinte.

Deixa que as línguas nos guiem
por entre os toques dos dedos frágeis.
Permite a entrada
das tropas inimigas,
mascaradas de cavalo de troia,
penetrarem as tuas gigantes muralhas.

E dorme, doce rainha principesca.

domingo, 12 de setembro de 2010

Caixa de musica

Dançavas que nem menina velha entornando certezas nos olhos de quem te mirava.
Pé ante pé lá iam as tuas ancas, saltando de quadrado em quadrado, conforme o som da melodia que pairava no ar como facas nos ouvidos.
Os cabelos, como lençóis de seda amassada, cobriam-te os ombros quando a tua cabeça se extasiava a contemplar o resto da sala.
Desconexas também as minhas pernas começavam a mexer em direcção ao abismo do teu bailado.
Os olhos como pérolas vermelhas incendiavam tudo em que tocavam, e os meus caiam repetidamente na timides fingida do teu notar.
As mãos, pequenas, esvoaçavam pelo imenso mar de roupas e iam-me atirando a favor das tuas.
Os constantes tumultos nos altifalantes do céu já não valiam ouro, ou prata, valiam pelos corpos que se juntavam.
O licor que fazia pesar os abraços foi d'um só trago, e os braços corriam tenues as montanhas na tua silhueta.
Soltaram-se por segundos gemidos de euforia, enquanto as mãos tacteavam com as pontas cruas dos dedos as orelhas, e atracavam sem dó nas cordas dos cabelos.
O doce da tua lingua é veneno nos labios, e a caixa fechou.