sexta-feira, 4 de março de 2011

"Quem está livre, livre está..."

Fomos deixados ao acaso de nos entendermos, como ninguém nos escolheu vamos ficando juntos. Cuspidos pra fora da roda por estarmos um pouco a mais, por sermos um pouco de mais. E quando ninguém nos quis vimo-nos na obrigação de cuidarmos os calores do corpo que não se esquentam com tochas nem labaredas.

Todos sabemos que a abundância de escolha tolda a visão e estorva o pensamento, por isso temos a vida facilitada, pelo menos ate que alguém salte roda fora. Achas que alguém salta?


Há dias que não sei que língua falar contigo, dias em que o português não te chega aos ouvidos, que, por mais que tente tu percebes as coisas todas ao contrário. Há outros em que não suporto sequer o facto de me deixar pensar em ti, vou-te boicotando por entre fileiras de pensamentos em que me refugio, camuflado, e tapo os olhos a tudo o que me leve aí.


O pior é quando depois do casamento de ideias e valores queres saltar a cerca para o outro lado, só pra ver se já alguém tombou de cu durante aquela dança circular, para que o possas levantar e limpar-lhe os farrapos enquanto julgas recuperar a juventude que já lá vai. Mesmo que alguém tenha caído, julgas mesmo que vão querer olhar para o fantasma de uma vida? Nem que vistas os melhores cetins.



E agora, achas que já alguém saltou?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Dia dos namorados

Queres namorar comigo?
Oh não, esta pergunta outra vez... para quê perguntar se já sabes a resposta?
Acredito na persistência, mas já agora porque não mesmo?
Já te disse, gosto demasiado de mim para namorar contigo.
E depois?
Depois se namorar contigo perco o interesse, ou anulo um dos dois, e não queremos isso pois não?
Se calhar não.
És demasiado importante para te perder e ainda agora comecei a gostar de ti, eu já te disse como é difícil apaixonar-me.
É.
Para alem do mais preciso de me soltar da outra, e sem que isso aconteça não me posso prender a mais ninguém, muito menos deixar que alguém se prenda a mim.
E se eu me quiser prender a ti?
Azar o teu, vais ter que te aguentar á minha impossibilidade...
Acho que posso com isso.
Eu acho que não podes, mas se quiseres tentar é a tua cabeça que fica no cepo. Dá-me tempo.
.
.
.
E agora, queres namorar comigo?

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Três divisões

Descendo os fios pintados do teu cabelo,
escorrem as palmas das mãos
que nem o licor que se amordaça
às paredes quentes da língua.

A fina ponta dos dedos
se te desenha na pele,
por cima dos traços do teu perfil,
um quadro invisível.

Na tela despem-se corpos
com as discórdias do pincel,
a carne nua solta nitrogénio em pó
fundido no céu.

No arrebitar dos seios
prendem-se verdades cuspidas,
escondidas da luz do dia,
esgravatadas na falta da noite.

O tímido abanar de ancas
mostra caminhos vedados a medo
que se abrem com palavras míticas,
e se fecham com o olhar.

Desce a água que se adivinha
no roçar das pernas
p'lo inicio do fim dos dedos
enquanto se descobrem nos lençóis
pés agrafados no colchão
depois de um trilho de sulcos.

Neles vais tu, eu sigo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eterno

É sempre tão efémero,

o tempo que te penteia os cabelos,
as tardes mortas no sofá,
a manta por cima do aquecedor
e o quente no fundo da pipa.

a mão quieta dentro do bolso
a agarrar no bilhete de metro,
e o caminho para tua casa
que passa por todas as linhas.

as faíscas no topo do eléctrico
no final da tarde fria,
o cachecol envolto ao pescoço
os solavancos frenéticos dos carris.

o sabor da pastilha nos dentes
antes de te beijar a boca,
e o formigueiro nas pernas
quando te vejo ao chegar.

o olhar que deitas sobre mim
quando os nossos corpos não se levantam,
e a tua voz do outro lado do telefone
que me deixa esvaída em sangue.

o sentir que posso sentir-te
eternamente dentro de mim,
e que, para tudo o que venha
estás de pedra e cal.

o hoje da chuva
o amanhã do sol,
e o nevoeiro dos entretantos
que toldam a visão algemada.

e é sempre tão eterno.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tinta da China

É ao descer na tinta que envolve
o cetim doce da tua pele,
ao contornar os traços inacabados
com a ponta da língua,
que me sobe à cabeça
e à ponta dos dedos
a estatica força de te jogar
o corpo contra a parede.

De te prender as mãos
em volta do pescoço
e te rasgar os labios
com o afiado prazer
no gume dos dentes.

Com as unhas cravar-te
pedaços de carne,
no meio da seda áspera dos lençóis,
a retalhar-te pedaços do passado
enquanto os teus olhos dançam
dentro das órbitas em torno do sol.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Márcia

Hoje quero não gostar de ti, desligar aquele botão onde tropeçaste sem querer e acendeu a luz do quadro. Não ter que me preocupar se á noite a colcha não foge do teu corpo frágil de criança, ou se estas sozinha na cama. Quero não saber de ti, ou se pensas em mim com a mesma intensidade e constância. Quero fugir livre e nua pisando os fetos partidos no chão, sentir o frio das pedras a rasgar-me a sola dos pés enquanto tu estas longe daqui. Boicotar-te dentro de mim para que não saias ca pra fora, fechar a porta as tuas lamurias e birras feias que te toldam os olhos e te avemelham o nariz. Cortar-te a mão que me agarrou pela primeira vez por entre as pernas e me fez soar de prazer, e morder-te os dedos que entraram dentro de mim até conseguir sentir a minha boca vermelha. Hoje não quero ser tua, nem que tu te atrevas a telefonar-me com facas na língua. Hoje quero dormir ate fazer doer os olhos, e acordar num depois de amanha onde tu estas, quieta, pequena e nova pra mim. E quero que voltes a ser eu enquanto adormeci. Hoje quero não voltar a tropeçar no botão que apagou a luz e nos deixou ás avessas no escuro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Perdia sempre a mesma coisa

Servia a noite toda e conhecia todas as texturas de todas as garrafas, podia até aceitar pedidos de olhos fechados. O espaço que o separava das bebidas e dos outros era pouco maior que um passo e, já os tinha dado a todos. Durante todo o espaço de tempo entre o entrar e o sair esperava ansiosamente por um único momento, entre esse momento e todos os restantes enchia copos e copos, juntava bebida com bebida e aturava os balbucios desajeitados pela pinga de meia dúzia. Amigos poucos tinha, os quais de quando em quando apareciam lançando abraços, gritos e foguetes para o ar, ele sorria, podia até oferecer-lhes um copo mas eles nunca tardavam em sair. Não ambicionara trabalhar ali, foi o acaso que lhe deitou as mãos e enfiou naquela noite, naquele sitio durante anos. O tal momento acontecia todos os dias durante as ultimas três semanas. Entre as duas e meia e as quatro os seus olhos não descolavam daquele vulto singular, estravagante e impertinente de cabelos curtos e encaracolados, e era quando se aproximava, depois de arrombar a porta com os punhos, do balcão que deixava de prestar atenção a tudo e todos os outros. Atirava os cotovelos por cima do mármore e pedia sempre o mesmo, sempre com a mesma pausa no olhar e na voz e aguardava sempre com o mesmo rasgado sorrir, nunca percebera se o sorriso vinha na sua direcção, tal como nunca tivera coragem de lhe perguntar o nome, mas, pintava-o na sua cabeça a tinta da china.
Quando se soltava descia de encontro a casa por meio escombros, garrafas partidas, corpos aos caídos, e nunca, nunca se cruzava com aquela silhueta.

Loop

"Nem por isso..." destronou assim a conversa.

Tinham sido duas crianças, e tinham crescido e deixado de ser duas crianças para passarem a ser uma criança grande. Ele era baixo, ela era alta, ele gordo, ela esguia, os olhos dele eram verdes, os dela castanhos, as feições dele eram brutas, ela tinha feições de princesa da disney, o humor dele mudava com o tempo, ela tinha humor sólido, ele gostava de levar, ela gostava de lhe bater, ele nunca chorara, ela ensopava a almofada todas as noites, ele queria ser outra pessoa, ela queria que ele fosse outra pessoa, depois do banho ele secava-se ao vento, ela usava toalha, ele nunca bebeu nem fumou, ela era viciada em tabaco e embebedava-se sempre que podia, os amigos dele não eram amigos dela, os amigos dela não queriam ser amigos dele, quando ele se vinha gritava foda-se, quando ela se vinha arrancava-lhe pele das costas, ele gostava de ser mais novo, ela parecia sempre mais nova, ele nunca falou, ela calava-se.

"Gostas de mim?" perguntou-lhe

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dispensa

She was holding herself down in a horizontal position, the wind laid his soft hands against her hair shoving it into the voidless air. Her hands, tied to those brick ropes she held on for so long it grew the green smell of moss, were reddish as a dying rose. The thin, white and cold feet, stepped upon the buildings side, feeling the thick windows of someones glass, were mistreated as a rubbish waste. She couldn't let go.

Solta-te menina, larga as amarras que te agarram à fachada velha dessa casa, dela só restam ruinas. Larga à confiança dos meus braços, e deixa-te cair dai de cima. Manda fora a esperança de desconstrução passiva dessa moradia antiga, ele não volta para reacender com uma pinha a lareira caiada. Atira-te dentro de mim, para dentro de mim e desiste dessa altura espevitada e da postura altiva e majestosa. Ele sabe.
Sobe e desenlaça as cordas que prendeste ao topo da chaminé, vem para minha casa enlaça-as no regaço quente. De lá não saias até que o teu corpo recupere das pancadas que te deram de borla. Sem que pedisses foram-se ajuntando nódoas negras à volta dos teus braços, dos teus punhos, e sem que visses foram-se enrolando punhos em volta do teu pescoço que te abafaram o respirar. Tu sabes.
Dentro da quente manta, e da luz apagada, junta-te comigo e procura o brilho no novo céu, encontra constelações sem sentido e significa-as. Mostra-me o que não sei para que lhe entorne o olhar e descanse o queixo. Leva-me e lava-me, seca-me no manto da tua pele e enxota-me as moscas e as traças de cima. Eu sei.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Conto de Maria I

Era tão efémero quanto o escassear das horas, o entrar no bar e, depois de quatro copos de scotch, encontrar alguém com quem passar o resto da noite. Ainda que isso não significasse o final previsível no fundo dos lençóis, sabia-lhe bem saborear uma boca nova todos os serões. Estudava as mulheres como quem estuda para um exame de final de curso, e conhecia os cantos e recantos dessa bela disciplina. Nunca assaltava o mesmo castelo na mesma semana, e tinha um mapa muito bem estudado, com as fraquezas de cada fortaleza dentro da sua cabeça. Saía sempre antes de se tornar irremediavelmente importante nas suas vidas, e tinha-se como santo redentor de corações acabados. Nunca se deixara envolver o suficiente para que se lhes pudesse chamar amor. Mas tratava-as todas com o mesmo respeito e delicadeza tal jardineiro velho num jardim de rebentos novos.

Maria aconteceu depois, bem depois. Estava já ele agarrado aos seus raros cabelos negros como alcatrão, e os sapatos gastos de tanta dança. Maria, singular, estonteante, de labios carnudos e doces num eterno tom avermelhado, pernas majestosamente altivas de atleta olimpica e silhueta perfeitamente recortada a bisturi cirúrgico, apareceu num fim-de-semana que se escapa no tempo.
Sem avizar, e por entre as garfadas num bolo ao pequeno almoço, no hotel mais caro da cidade, os olhos dele choveram entre os ombros da delicada face de Maria. Naquele preciso instante ele realizou que a tinha que vencer. Era a mulher mais bela que alguma vez tivera visto, as suas bochechas arrebitadas embalavam o bolo num bailar de cisnes, os seus dentes quase sem se fechar tocavam-se solenes como os grãos de areia na praia, o queixo com uma ligeira cova no meio fazia-lhe lembrar as dunas d'um deserto distante, os seus cabelos encaracolavam-se lançando-se sobre os seus ombros quase que deitados a dormir, das pérolas que tinha como olhos caiam, intermitentemente, fugases e desinteressados contemples sobre a mesa. Nunca um ser se apoderara do seu fitar de tal forma, nunca se sentira aprisionado em coisa tão sublime, fria e terna. Tinha que lhe chegar.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crestássemos

Brincavam com o fogo e dominam-no com uma destreza acutilante. De manhã a meio de um beijo deitavam no chão os trapos e ensopavam-nos em querosene, vestiam-se e saiam para as suas vidas. Ambos fumavam, ambos tinham isqueiros com que acender os cigarros e ambos passavam o dia a brincar com o fogo. Ele animava a praça a meio da tarde com as mais singulares danças de amor por entre linhas de livros e pedras da calçada. Ela por sua vez servia de cinzeiro a doentes alcoólicos, onde estes despejavam as cinzas do passado. Jogavam com fogo.

Por entremedio de falsos rituais chegava a hora em que se encontravam de novo e, sem grande importância, se acendiam mutuamente sentando-se numa explanada de café. Enquanto ardiam por fora, o miolo, frio, não tardava em arrefecer. Os olhos, fogo, as palavras, fogo, os suspiros, fogo, os dedos entrelaçados, fogo, a distância entre um roçar de palavras, fogo.
O fogo servia-lhes como o quente de uma lareira, uma labareda no mato seco, uma beata acesa num pulmão canceroso.

Brincavam.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Caixinha de suspiros

Era de noite e a pergunta ficou outra vez agarrada no fundo da caixa, ela olhava-o com aquele sorriso cúmplice à espera do convite, mas ele centrara-se mais uma vez numa tremenda divagação sobre o sentido das coisas em si.
Enquanto as melgas rodeavam, freneticamente, as lâmpadas na rua à procura de calor, eles iam descendo de mãos quase dadas em direcção ao cais, onde ele a iria ver partir pela terceira vez no espaço de dois meses. Era-lhe sempre difícil a aceitação de uma despedida, ainda que curta, por isso nunca sentiu a força suficiente para deitar aquelas cartas na mesa.
Nunca um livro levara tanto tempo a ser escrito como o dele, nunca uma musa vivera tão longe do seu pintor. O inverno tempestuoso aceitara treguas durante aquele dia e, como tal, decidiram que era altura de sair a correr para fora do ninho.
Por fim estavam já no cais rendidos e de armas baixas esperando que alguma coisa rebentasse em frente aos seus olhos e os cegasse de vez. O sorriso não lhe abandonaria de vez a cara até que ela estivesse dentro do barco, até lá a esperança do convite vivia. Ele ainda diletanteando em cima das palavras, mantinha um discurso fugidio e cauteloso que, pé-ante-pé, não tinha falha alguma.
Ouviram o gritar da campainha que abria as portas a mais uma viagem, e enquanto se namoriscavam com os olhos o tempo ia-lhes fugindo esgoto abaixo. Gostei de estar contigo, disse-lhe ela por entre um abraço terno. Acho que devia-mos repetir, lançou ele por entre os dentes. Foi um adeus solto no fim dos dedos.
Na sua cabeça repetidamente rugia a palavra: fica comigo.
Eram só palavras.
E ela nunca ficou.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Silhueta decotada

Sabes, foi no teu arquear de costas que nasceu o mundo, foram nessas linhas finas, que descem a tua cinta recordada, que escorregaram os meus dedos que nem lápis de carvão doce.
Foi sempre assim que se te desenhei as costas, com isso e com os pedaços soltos da minha saliva a escorrer-me a língua e que te cravaram os ossos à pele.
É quando a borracha teima em apagar esse desenho que se soltam infinitos foguetes a gritar por ti, pela tua face, pelo teu perfil decotado, pelos lisos centímetros da tua silhueta.
Sabes, nunca é na cama que morre o sonho, nem no fundo da garrafa, nem mesmo no fim da noite.
É no acordar.
Em ti.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Meias cheias

Hoje não te quero ver estás vazia, sabes bem que não gosto de te visitar vazia. Hoje só de pensar em entrar em ti, vazia, davam-me voltas á garganta, fui por isso errando entre as paredes da pequena Lisboa.
Andei ao encontro das tascas que, cheias, me mantinham o mais longe do teu vazio. A tua falta de tudo era o meu nada.
Mais tarde passei pelos escassos bares procurando antigas companhias, novas caras ou até mesmo aquelas para as quais é difícil parar a olhar.
Já bebido e muito esquecido, voltei para ti. Ainda que vazia eras a única que tinha o jeito de me abrigar.

Hoje não te vou querer ter, és vazia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Teia minha

"Sinto que no fim vou ficar contigo és tudo o que eu quero, mas por agora não te posso ver nem pintado."

Foram estas as escassas palavras que se enrolaram em torno das suas orelhas e lhe aprisionaram a cabeça. A partir desse instante as longas e espessas teias foram lançadas debaixo dos pés, os movimentos, quando existiam, serviam só para o embrulhar no lençol.
Ela tinha jogado todas as cartas, ele ainda meio abananado com os abalos nas fundações parou a olhar para um palacio. Nunca se soube desenmerdar sozinho, pelo menos nunca depois de se ter deitado numa outra cama e desempacotado as meias na mesinha de cabeceira.

"...és tudo o que quero... mas põe-te nas putas." foi isto que continuou a ecoar dentro da mioleira fria e vazia.
Decidiu por alguns séculos deitar areia sobre o assunto e deixa-lo junto das conchas, não a viu, não a queria ver, ou pelo menos era isso que queria querer.

"...no fim és meu..." no fim do quê? Tudo o resto foi um recalcamento estúpido daquele dia e ele não conseguia estar com mais ninguém sem que, numa ou noutra noite, não se aconchegasse mais na teia à espera de ser comido. Ela é maior, ela é sempre maior, ou pelo menos assim o foi.

No outro dia, assaltando um canto do olho, viu-a esgueirar-se na janela de um carro, acompanhada, como é obvio, pela nova presa.

"...no fim..." percebeu.