Num leve travo o cheiro chega a mim, como, ainda que tão distante, to consigo sentir?
A cama à noite é dura e fria como pedra, o ligeiro aroma vagueia pelo quarto, solene, e por mais que lhe tente chegar escapa-se-me sempre por entre os rasgos dos dedos.
Deitado no chão sujo agarro, tentando arrancar-me da pele o que ficou, não consigo, já cá não está...
O cérebro cega sempre que te vais, e os olhos evitam ver o lugar vazio que deixas.
À noite os espasmos são mais que muitos, durante o dia desprezo-os para que consiga respirar.
Os dias de angústia sem tocar num pedaço de carne que envolve o teu corpo deixam-me sedento, a salivar para o chão pedaços de sémen morto.
Enquanto as veias do teu corpo não rebentarem em êxtase, não tenho um segundo de descanso, enquanto os teus olhos não condenarem o dia em que nos atentaram , não tens perdão, enquanto for de nós o cheiro...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Quarto Espelhado
Na confusão de reflexos do teu olhar, espelhos esbatem atrapalhados o embaciar dos teus músculos suados.
É difícil espelhar o sentido das palavras sem te ver, ao contrario não faria sentido.
Nem nas cores dum diamante se te encontro, se ocultam as linhas que te pintam, nem no sol a cair sobre a chuva se te desenham os teus choros.
Os verbos amar, odiar cortam a pele da mesma forma.
Nem na distância, nem no tempo, nem no tempo, nem na ânsia.
Nem sou eu, nem és tu, é um mundo maior do que nós.
Espelhos reflectem-se e, se não estás no meio, não existes.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Até
Começar sem acabar, inspirar sem expirar, cantar sem ler.
Espantalho fulminante paira sobre a cama em sonhos passados, pesados, recortados, colados.
O amor d'outro aquece fogo na lareira, rasteira.
Bicos de lápis de aço, papel rasgado, estropiado.
Sentido sem sentido, desmedido, vácuo comprimido, equimose interna.
Ser quem não se é, quem não foi, não posso ver, não queres ser.
"Nunca's", "Jamais's" empecidos.
Até ver, sou quem fui e quem quero ser.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Tulipa (rendição)
E o tempo passa, há quem diga, rápido de mais, enquanto um dia perde as vinte-e-quatro horas e se transforma em nada. Passado.
Era inverno, o cinzento cobria metade da cidade que se iluminava somente pelos focos amarelos dos faróis. As paredes agarravam-se ao nevoeiro esperando molhar-se, as portas das lojas, fechadas, embaciavam-se com o calor retido. Era quase impossível ver uma alma na rua, o frio eram machados a rasgar a roupa.
Ela, perdida, ia vagueando com a mão esvoaçante a medo de bater em algum poste.
Onde estás? perguntava constantemente.
Dias antes deixara-a estendida na cama do quarto do hotel com uma pétala na mesinha de cabeceira.
"Não volto, mas fico contigo."
Foi por ti, é por ti que choram, é por ti que as pétalas são tão doces, os talos tão leves, querem ser como tu, tentam, desde sempre, ser como tu. Há mais de mil guerras que crescem e morrem no tentar.
Querem a tua pele de seda, os teus cabelos selvagens, querem refugiar-se por entre as flores do teu sexo, tocar-te uma só vez e roubar o teu segredo, e vão efemeramente chegando a ti.
Sou mero observador, mirone passivo da escaramuça natural contra a tua destrutiva beleza, sou eu aqui sentado a olhar os teus olhos a dormir."
Adeus amor.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
ACamada
Nadam mãos na imensidão húmida e fria dos lençóis, nem um único cabelo, os pés revoltam-se no fundo escasso da cama sem encontrar o calor que agarra os teus.
O colchão suplica p'la tua tosca silhueta, os sulcos do teu amor não tardam a esmorecer, e tu onde estás?
O quarto fica sempre mais gelado com um só corpo.
Encontrar-te em todos os homens com quem dormi é evidentemente impossível, nenhum deles me outorgava as asas que tu levaste.
Nunca lhes ofereci os segredos do meu corpo, era sempre menos, era sempre nada.
Volta, repõe os ossos partidos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Pó da'Corda
Andamos na corda bamba, contorcionistas de pensamentos.
Ainda que o vento não sopre forte basta um não para garantir a queda, não.
Somos só mais dois a experimentar o atrocíssimo leve do amor, lá em baixo jazem mais corpos que num outro holocausto.
Somos os dois numa ponta afastada que nos liga pelas finas fibras ópticas, somos dois dóceis parvos à espera da ordem pra andar que nem pirata na prancha, somos dois e jamais seremos um, a vida é mesmo assim.
As pernas avançam, pé-ante-pé balançam os ossos, as mãos equilibram agarrando os pensamentos á cabeça, um só somos pó, já faltou mais...
A corda é forte, prende-me a este barco desde sempre...
Ainda que o vento não sopre forte basta um não para garantir a queda, não.
Somos só mais dois a experimentar o atrocíssimo leve do amor, lá em baixo jazem mais corpos que num outro holocausto.
Somos os dois numa ponta afastada que nos liga pelas finas fibras ópticas, somos dois dóceis parvos à espera da ordem pra andar que nem pirata na prancha, somos dois e jamais seremos um, a vida é mesmo assim.
As pernas avançam, pé-ante-pé balançam os ossos, as mãos equilibram agarrando os pensamentos á cabeça, um só somos pó, já faltou mais...
A corda é forte, prende-me a este barco desde sempre...
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
tu, elle (quarto 210)
Combinaram encontrar-se no cais sem nunca se terem visto, sem nunca terem falado, sem nunca se terem tocado.
Ele vinha de longe, ela chegara hoje a Portugal ao fim de alguns anos exilada por ai.
Não conversaram, quando ele deixou o barco largou as malas aos seus pés e beijou-a, ela cravou-lhe as mãos na nuca e beijou-o.
Apanharam um taxi, Para onde, perguntara o taxista, Para um hotel de 4 estrelas junto da baixa, foram estas as palavras.
A porta do hotel abriu-se querendo que entrassem, marcharam e o check-in deixou-lhes a chaves do quarto 210 caída no balcão, enquanto o bagageiro apressava as suas coisas para o elevador, para o quarto.
Jantaram, as suas bocas faziam bailar a comida, os seus olhos, ao invés, um de cada vez, enterravam-se um no outro.
Subiram as escadas para o quarto, 4º piso, de mãos dadas...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Tulipa (redenção)
Redenção
A tua saliva é fervor quando desbravas os terrenos inóspitos do meu corpo nu, quando me beijas mesmo por de baixo do umbigo.
Sabes, a tua língua é magma quando se junta aos meus lábios, quando circula p'lo monte lustroso do meu prazer, fere as mãos o agarrar à madeira da cama, as tuas são garras que não me soltam senão no fim de alguns gemidos descontrolados, fico louca quando ao fim de algum tempo me marcas as pernas com as tuas unhas gastas, quando arqueio as costas e tu enfias, mais fundo, a língua dentro de mim sem um pingo de misericórdia.
Sabes, os teus dedos são polvos vivos a mergulhar no suor do meu corpo, a explorar todos os buracos do meu corpo, não consigo resistir a apreçar o teu caminho pra dentro de mim, quero-te tanto dentro de mim que já não penso claramente à horas, quero sentir o afundar do teu sexo em mim, sentir cada milímetro do teu pénis duro, ouvir o grito verde dos teus olhos, lamber-te a cara, comer-te os lábios, morder-te as orelhas, embrenhar em ti os meus braços e, enfiar-te para o mais profundo de mim, gritar aos teus cabelos, amarrar-te as costas com mordaças, explodir-te os tímpanos com um sussurro, esfaquear-te os músculos das pernas, eclodir, rebentar, desabrochar, vociferar, bradar, extasiar, renascer.
Sabes.
(absortas-me, e eu deixo.)
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Tulipa (negação)
Negação
Três passos pra traz dois para a frente de encontro ao calor do teu peito, sabes bem que não resisto em encontrar-te por ai caída.
Lá fora chovem potes de encontro aos estores e o barulho é repetidamente encantador, só a tua voz me consegue embalar este sono.
A estática da televisão hipnotiza os mosquitos que vinham pra beber um pouco do meu vinho, os cigarros enchem-me as mãos, um após o outro, um após o outro.
Não estás, e eu fico dominante, louco.
As águas de Dezembro encharcam-me a roupa, não te quero querer tanto.
Três passos pra traz dois para a frente de encontro ao calor do teu peito, sabes bem que não resisto em encontrar-te por ai caída.
Lá fora chovem potes de encontro aos estores e o barulho é repetidamente encantador, só a tua voz me consegue embalar este sono.
A estática da televisão hipnotiza os mosquitos que vinham pra beber um pouco do meu vinho, os cigarros enchem-me as mãos, um após o outro, um após o outro.
Não estás, e eu fico dominante, louco.
As águas de Dezembro encharcam-me a roupa, não te quero querer tanto.
Tulipa
A promessa
Nas ruas frias de uma cidade onde os prédios, tão próximos que, se ouviam respirar, caminham de mãos entrelaçadas sem força pra soltar, os risinhos escondidos comandam a marcha, só eles conhecem aquelas ruas sem nunca ali terem pousado. O embalar das luzes que enfeitam o próximo natal dá-lhes o conforto de casa, e dançam descendo as ruas da baixa.
Ainda bem que te encontrei, solta-se-lhes da voz aos tropeços sobre pedras da calçada.
Não me largues.
A noite serve-lhes de capa para o que vem a seguir, não querem sair dali, e o desejo de tornar aqueles escassos dias nos mais memoráveis, rasga-lhes o peito com a força bruta de um machado.
Os teus pés frios nos meus, a trepar-me as pernas, a prender-me a ti.
O calor da tua fala estilhaça-se-me no ouvido e desce, num arrepio, a espinha.
As tuas mãos no meu corpo, nu, a agarrar-me com força as costas.
O salivar do teu belo tronco a sucumbir ao meu peito, ao meu gemido, ao meu sexo.
Grito calado desfaz o tecto, e as costas arqueiam-se num maremoto de suor, não pares, os dentes prendem-se na carne, não pares, os lençóis pegam fogo, não, a madeira da cama crepita, pára, o sol rompe a noite...
É manhã... dois corpos jazem estendidos no chão.
Nas ruas frias de uma cidade onde os prédios, tão próximos que, se ouviam respirar, caminham de mãos entrelaçadas sem força pra soltar, os risinhos escondidos comandam a marcha, só eles conhecem aquelas ruas sem nunca ali terem pousado. O embalar das luzes que enfeitam o próximo natal dá-lhes o conforto de casa, e dançam descendo as ruas da baixa.
Ainda bem que te encontrei, solta-se-lhes da voz aos tropeços sobre pedras da calçada.
Não me largues.
A noite serve-lhes de capa para o que vem a seguir, não querem sair dali, e o desejo de tornar aqueles escassos dias nos mais memoráveis, rasga-lhes o peito com a força bruta de um machado.
Os teus pés frios nos meus, a trepar-me as pernas, a prender-me a ti.
O calor da tua fala estilhaça-se-me no ouvido e desce, num arrepio, a espinha.
As tuas mãos no meu corpo, nu, a agarrar-me com força as costas.
O salivar do teu belo tronco a sucumbir ao meu peito, ao meu gemido, ao meu sexo.
Grito calado desfaz o tecto, e as costas arqueiam-se num maremoto de suor, não pares, os dentes prendem-se na carne, não pares, os lençóis pegam fogo, não, a madeira da cama crepita, pára, o sol rompe a noite...
É manhã... dois corpos jazem estendidos no chão.
Outro Plano
Momentos em que estou aqui, sem que o teu respirar roce a minha orelha, me quebre de desgosto a latitude e a longitude.
É na altitude dos pés da cama que morre a saudade dos teus abraços, dos pelos grossos das tuas pernas nas minhas.
Ainda ontem partiste e ficou o eco do teu nome nos cantos do quarto.
Não consigo largar os lençóis onde dormimos, o colchão suga-me o sono pra que pense em ti, no tecto do quarto paira o nosso cheiro, ainda.
Perdi-me para ser mulher nos teus sonhos, na força bruta dos teus braços, dos beijos, e agora não quero voltar a encontrar-me.
Se por mim fosse, dependeria de ti para sempre, para que constantemente os teus lábios me atirassem de encontro à parede.
O cal da parede enlouquece-me...
É na altitude dos pés da cama que morre a saudade dos teus abraços, dos pelos grossos das tuas pernas nas minhas.
Ainda ontem partiste e ficou o eco do teu nome nos cantos do quarto.
Não consigo largar os lençóis onde dormimos, o colchão suga-me o sono pra que pense em ti, no tecto do quarto paira o nosso cheiro, ainda.
Perdi-me para ser mulher nos teus sonhos, na força bruta dos teus braços, dos beijos, e agora não quero voltar a encontrar-me.
Se por mim fosse, dependeria de ti para sempre, para que constantemente os teus lábios me atirassem de encontro à parede.
O cal da parede enlouquece-me...
MISTÉRio
Pintar-te em pedaços rasgados de papel, ler-te nas folhas riscadas do pincel
Pensar-te entre nevoeiros parciais, escrever-te em folhas de jornais
Destilar-te em pipas de metal, despir-te de um escárnio carnal
Sentir por entre linhas tortas, sufocar
Planar em navios naufragados, navegar nos aviões de cartão
Querer ter o que nunca se viu, desejar esquecer quem jamais partiu
Rasgar diários esquecidos em prateleiras caídas, apagar telas esgotadas partidas
Se me perguntares quem sou, não te respondo.
Pensar-te entre nevoeiros parciais, escrever-te em folhas de jornais
Destilar-te em pipas de metal, despir-te de um escárnio carnal
Sentir por entre linhas tortas, sufocar
Planar em navios naufragados, navegar nos aviões de cartão
Querer ter o que nunca se viu, desejar esquecer quem jamais partiu
Rasgar diários esquecidos em prateleiras caídas, apagar telas esgotadas partidas
Se me perguntares quem sou, não te respondo.
SEM-ti-do
Sempre gostei de quando nos usava-mos para aliviar o tédio de uma tarde qualquer.
Usar-te fazia sentido, pois já não te queria, nem tu a mim, julgava.
Toda a merda passava à nossa volta numa constante velocidade, nessa altura, acendia-mos um cigarro e desaparecia-mos num beco reservado para as nossas desventuras.
Servia-me de ti.
Não te procurava.
Abusavas de mim.
Nem me questionavas.
-By, by baby...
-Adeus.
Usar-te fazia sentido, pois já não te queria, nem tu a mim, julgava.
Toda a merda passava à nossa volta numa constante velocidade, nessa altura, acendia-mos um cigarro e desaparecia-mos num beco reservado para as nossas desventuras.
Servia-me de ti.
Não te procurava.
Abusavas de mim.
Nem me questionavas.
-By, by baby...
-Adeus.
Etimologia da palavra amor
Sinto a tua falta, amor, de me esquecer do medo de te ter, amor, sinto pena, amor, de não ter, na mão aberta, o calor liquido do teu peito, amor, quero ter-te em mim, amor, perder-te em mim, amor, sentir-te, amor, renascer, amor.
Amor, querer em ti o que nunca vi, amor, brincar no fundo do poço seco de lamentos, amor, saltar em flecha pro céu, amor, banhar os pés no sal da terra, amor, sofrer no chão o tactear, amor, gritar ao muro até cair.
Mas tenho pavor, amor, de acordar sem ti, outra vez.
Amor, querer em ti o que nunca vi, amor, brincar no fundo do poço seco de lamentos, amor, saltar em flecha pro céu, amor, banhar os pés no sal da terra, amor, sofrer no chão o tactear, amor, gritar ao muro até cair.
Mas tenho pavor, amor, de acordar sem ti, outra vez.
Subscrever:
Comentários (Atom)